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BOLETIM DO CLUBE FILATÉLICO DE PORTUGAL

Nº 399 - Março de  2003

 História Postal de Angola ( 14 )  -

 - Correio aéreo entre Angola e Moçambique: os precursores

Elder Manuel Pinto Correia

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1 – Introdução

 

Nunca será demais escrever sobre a história do correio aéreo das ex-colónias portuguesas e particularmente das grandes colónias africanas – Angola e Moçambique – porque muito ainda há que contar sobre a sua aviação e serviço postal com ela relacionado.

Moçambique foi a primeira colónia portuguesa de África a desenvolver a aviação civil, assim como um serviço regular de correio aéreo. Graças á proximidade de Broken Hill, ponto nevrálgico das ligações aéreas inglesas a cargo da Imperial Airways, Moçambique logo em 1933 começou a tirar partido da vantagem temporal do correio aéreo. A correspondência era remetida por via terrestre ou ferroviária para Broken Hill e daí seguia por via aérea pelos aviões da companhia inglesa A 6 de Julho de 1934 é inaugurada da linha aérea francesa de Antananarive a Broken Hill com passagem por Majunga, Moçambique ( Lumbo ), Quelimane e Tete. Esta ligação, em conexão com a da companhia inglesa que ligava a Cidade do Cabo com Londres, permitiu que a colónia passasse a usufruir de um serviço postal aéreo completo.

 Angola só muito mais tarde iniciou um serviço postal aéreo. A partir de 24 de Junho de 1936 aproveitando a proximidade de Leopoldville e por consequência os aviões da Sabena que semanalmente voavam através do continente africano para Bruxelas, passou a remeter quinzenalmente, por camioneta contratada à empresa angolana Sapic, malas postais para aquela localidade para, a partir daí, seguirem por via aérea. Este serviço vigorou até Dezembro de 1936, tendo sido abandonado pelos fracos resultados obtidos, pois os custos de transporte das malas por via terrestre eram incomportáveis e o número de cartas remetidas ia decrescendo significativamente a cada viagem que se efectuava. Apenas a 27 de Outubro de 1938, graças aos esforços do Aero Clube de Angola, foi possível estabelecer uma ligação aérea definitiva com Ponta Negra na África Equatorial Francesa, permitindo assim o envio de malas postais por avião para a Europa em conexão com a linha aérea Ponta Negra/Marselha da empresa de aviação francesa Aeromaritime.

 Entretanto, tanto em Angola como em Moçambique, davam-se os primeiros passos para a criação de companhias aviação. A colónia da África Oriental foi mais célere e já em 1937 através da DETA eram efectuados voos civis. Em Angola a homónima DTA só em 16 de Abril de 1940 fez o primeiro voo experimental ligando Luanda a Ponta Negra.

Atentas ao evoluir da aviação civil, as populações angolana e moçambicana ansiavam pelo estabelecimento de um mais íntimo contacto bem como de ligações mais rápidas entre os dois grandes pedaços do Império Colonial Português. Dia 28 de mês de Julho de 1938 foi um marco importante, percursor da realização das aspirações daquela gente.

 2 – A primeira ligação aérea Moçambique-Angola

  Em Julho de 1939, ainda sob os auspícios do Acto Colonial e da aprovação da Carta Orgânica do Império Colonial Português publicada em 1933, e na perspectiva de consolidação dos laços de solidariedade moral e política entre Colónias e Metrópole, o Presidente da República General António Óscar Fragoso Carmona e o Ministro das Colónias Dr. Francisco José Vieira Machado embarcam a bordo do paquete “Angola” com destino a Angola numa viagem de trabalho. A colónia procura dar a conhecer todas as suas potencialidades ao Chefe de Estado e, em cerimónia de boas vindas preparada para a sua chegada a Cabinda, faz sobrevoar o paquete que o transportava por todos os aviões do Aero Clube de Angola, com o intuito de conseguir apoios para o desenvolvimento da aviação civil. Moçambique, não sendo contemplado com a visita do Chefe de Estado, prepara uma embaixada para se deslocar a Angola, com a finalidade lhe apresentar as boas vindas e ao mesmo tempo sensibiliza-lo para uma visita em 1939 àquela colónia.

Fig 1 – Carta remetida de Lourenço Marques ( 28.07.1938 ) para Luanda ( 30.07.1938) pela primeira  mala postal por via aérea entre Angola e Moçambique.  Pagou o porte de 1$20 correspondente ao primeiro porte do serviço ordinário ( peso até 20 grs. ) e registo. As  cartas remetidas por esta mala foram  isentadas da sobretaxa de correio aéreo.

  Como prova da sua pujança económica e de grande desenvolvimento em todos os sectores económicos, decide-se que a embaixada se deva deslocar por via aérea, num avião da novel DETA, dando-se assim mostra de um acontecimento notável e de grande utilidade para o futuro. O trissemanário Lourenço Marques Guardian de 30.07.1938 dá-nos conta desse estado de espírito, em notícia da qual expurgamos o seguinte trecho:

 E quando a grande aeronave poisar as suas rodas sobre a terra de Luanda certamente que os portugueses que lá estão vibrarão de fervor patriótico, de orgulho nacionalista por verem a grande “ave” portuguesa que atravessou o continente africano de oriente a ocidente para lhes levar o abraço fraternal dos portugueses que nesta costa, como lá, também trabalham com denodo para dilatar o prestigio de Portugal como país colonizador.

  A embaixada moçambicana era assim constituída: Presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques e Director do Porto e Caminho de Ferro de Lourenço Marques Engº. Pinto Teixeira; Vice-Presidente da Câmara de Comércio, Manuel Xavier da Silva; Presidente da Associação Comercial, Paulino Santos Gil, que representava também a Associação do Fomento e a Associação dos Velhos Colonos; Presidente da Associação dos Proprietários, Cap. Manuel Simões Vaz; representante da Associação dos Desportos, Engº. Prata Dias; representante das Associações Regionalistas, Cap. Carlos Magalhães: Presidente da Associação dos Empregados do Comércio e Indústria, José Perdigão; representante das Associações Recreativas, Domingos Salema e representante do Rádio Clube, António Augusto Gonçalves.

Fig 2 – Carta remetida de Luanda (03.08.1938) para Lourenço Marques (07.08.1938). Primeira mala postal aérea entre Angola e Moçambique. Tal como o exemplar da fig. 1 não pagou sobretaxa aérea por deliberação das entidades postais.

  •  O plano de voo

 A 28 de Julho dá-se então partida para tão inédito como importante evento. Um trimotor Junkers baptizado com o nome “Lourenço Marques” com a matrícula CR-AAK, da Divisão de Exploração de Transportes Aéreos (DETA) com uma lotação de 14 lugares, pilotado pelo seu Comandante Major Aviador Pinto da Cunha e tendo como pilotos F.K. Maringuer (da casa Junker) e Luís do Amaral Ferreira (da DETA), como radiotelegrafista Turnow (da casa Junkers) e mecânico Monteiro (da DETA) partiu às 12H00 exactas tomando a direcção da Moamba por onde passou às 12H10, voando sobre o Incomati. A passagem por Ressano Garcia já se fez a 10.000 pés de altitude, a altitude normal para este tipo de aeronave. O avião deixou o solo moçambicano ás 12H30.

Ás 15H30 avista-se Bulawayo, começando os preparativos para a aterrissagem. Ás 15H40 faz uma aterragem perfeita. Cumpriu-se assim a primeira etapa do plano de voo na distância de 776 kms em 3 horas e 40 minutos. A comitiva foi recebida com grande regozijo e respeito pelas autoridades locais que deram todas as facilidades de imigração e alfândega. Depois da magnífica recepção de que foi alvo a embaixada, seguiu-se a sua hospedagem no Grande Hotel de Bulawayo, onde pernoitou.

 

Mapa 1 – Rota da primeira ligação aérea entre Moçambique e Angola

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